Quando você pensa em pinguins em Ushuaia, provavelmente imagina o verão: ninhos, filhotes, dias longos e colônias cheias de vida. E é verdade: a maioria chega na primavera e vai embora quando o frio começa. Mas existe uma exceção que quase ninguém conhece. No Canal Beagle, em frente a Ushuaia, uma espécie fica o ano inteiro — inclusive em pleno inverno. E isso significa uma coisa muito boa para quem viaja fora da temporada: sim, você ainda pode vê-los, justamente quando achava que já não havia nenhum por ali.
O mito: “Pinguins só aparecem no verão”
Para entender por que isso é tão incomum, primeiro precisamos conhecer um pouco da vida dos pinguins. Eles são aves marinhas: passam a maior parte do ano no mar, se alimentando. Na primavera, voltam à terra para os acontecimentos mais importantes do ano — construir o ninho, botar os ovos, criar os filhotes e trocar a plumagem — e, quando o frio chega, retornam ao mar.
Muitos também migram centenas ou milhares de quilômetros: vão em busca de águas mais ricas em alimento para passar o inverno comendo e recuperando as forças de que vão precisar na próxima temporada de reprodução.
Em Ushuaia, o exemplo mais claro é o pinguim-de-magalhães: milhares chegam à Isla Martillo em outubro, se reproduzem durante o verão e, no fim de março, partem para o mar e migram em direção ao norte. Só voltam na primavera seguinte.
Esse ciclo de vida — chegar na primavera e ir embora no outono — é o de quase todos os pinguins do mundo. Quase.
A exceção: o pinguim-papua
Ao lado dos pinguins-de-magalhães, na mesma ilha, vive uma colônia muito menor: a do pinguim-papua (Pygoscelis papua), facilmente reconhecido pela faixa branca que atravessa sua cabeça.
E, para começar, ele é lindo: bico de um laranja intenso, aquela faixa branca que liga os olhos por cima da cabeça e patas alaranjadas. É o terceiro maior pinguim do mundo — depois do imperador e do rei — e o mais veloz de todos debaixo d’água: nada como uma flecha. Só de vê-lo, a experiência já vale a pena.
O papua pertence a um grupo de pinguins de águas frias: seus parentes próximos vivem na Antártida e nas ilhas subantárticas. Mas ele é o que mais se aventura em direção ao norte — e, para uma espécie assim, a Terra do Fogo já é uma fronteira, o limite norte do seu mundo.
Além disso, é o mais caseiro de todos. Ao contrário dos pinguins-de-magalhães e de quase todos os outros pinguins, o papua não faz a grande migração de inverno. Isso não significa que ele não vá ao mar — vai, sim, todos os dias, para se alimentar —, mas fica por perto e volta. Sua vida acontece sempre ao redor da mesma ilha.
Informação importante: a colônia da Isla Martillo é a única colônia reprodutiva de pinguins-papua em toda a América do Sul continental, fora das Ilhas Malvinas. Fica a poucos minutos de navegação de Ushuaia.
Os outros migram. Eles ficam.
É aqui que a história fica interessante. Na mesma ilha, duas espécies seguem caminhos opostos. O pinguim-de-magalhães vai para o mar por cerca de seis meses, como fazem quase todos os pinguins. O papua fica.
Por quê? A resposta está na forma como cada um se alimenta. O papua busca alimento perto da costa e no fundo do mar, em águas rasas, bem próximo da colônia. Suas saídas são curtas: ele sai, come e volta no mesmo dia. Não precisa ir para outro lugar porque sua comida continua ali, logo ao lado, inclusive no inverno.
Outro fator é que o Canal Beagle não congela. Em regiões mais ao sul, o gelo pode bloquear o acesso à colônia e obrigar os pinguins a se dispersar. Aqui isso não acontece: a ilha permanece acessível o ano inteiro.
Eles voltam à terra todas as tardes
Um dos detalhes mais bonitos dessa colônia é que podemos acompanhar a rotina dos papuas. Eles saem cedo para se alimentar e, mais tarde, voltam à terra para descansar.
E há algo que, mesmo depois de presenciarmos tantas vezes, ainda nos surpreende: eles voltam quase no mesmo horário, em grupos que às vezes têm 20 ou mais indivíduos, saltando para fora da água como golfinhos enquanto se aproximam da ilha. É uma cena sublime: daquelas que nenhuma foto consegue captar por completo e que a gente nunca esquece.
Informação importante: uma equipe do CADIC-CONICET, o centro de pesquisa científica de Ushuaia, documentou esse comportamento com uma câmera automática que tirou uma foto por hora durante um ano inteiro. Os pesquisadores confirmaram que os papuas frequentam a colônia ao longo de todo o ano, com saídas diárias para o mar. O que vemos da água tem respaldo científico.

Afinal, por que eles ficam?
No fundo, o motivo é simples: aqui eles têm tudo de que precisam.
- Comida por perto, o ano inteiro. Eles se alimentam no fundo do mar, ao lado da ilha, e esse alimento não desaparece no inverno.
- Um canal que não congela. A colônia continua sendo sua casa durante os doze meses do ano.
- Migrar exige muita energia. Ficar por perto, em um lugar conhecido, economiza energia e reduz os riscos.
- Eles começam cedo. Já em setembro formam seus pares, então estar sempre perto do ninho é uma vantagem.
Quando vale a pena vê-los no inverno?
A colônia de papuas está lá durante todo o inverno. E, ao contrário do que muita gente imagina, o inverno no canal costuma ter pouco vento: os passeios quase não são cancelados e é possível navegar praticamente sempre. A isso se soma o melhor de viajar fora da temporada: muito menos gente, uma experiência mais tranquila e intimista e uma luz diferente, com aquele pôr do sol demorado e suave sobre a água.
Se você gosta de observar animais e procura algo diferente do roteiro clássico, o inverno é uma época ideal para conhecer essa história de perto.
Perguntas frequentes (FAQ)
É possível ver pinguins em Ushuaia no inverno?
Sim. O pinguim-papua fica no Canal Beagle o ano inteiro, inclusive no inverno. Já os pinguins-de-magalhães migram e voltam na primavera.
Quantos papuas existem na colônia?
É uma colônia pequena — cerca de 50 casais —, mas com uma história impressionante: começou com um único casal no início dos anos 1990 e não parou de crescer desde então.
Consigo vê-los de perto?
Sim, bem de perto. Saímos em uma embarcação pequena, por isso a experiência é bem diferente de um passeio de catamarã: os papuas são muito curiosos e se aproximam. Você os observa no habitat natural, sem incomodá-los, acompanhado por guias que conhecem a região e o comportamento da espécie.
É o mesmo passeio oferecido no verão?
O nosso passeio — em grupos bem pequenos, com saída de Puerto Almanza — funciona o ano inteiro. No verão, também há passeios de catamarã: uma experiência menos intimista, mas que percorre todo o Canal Beagle. No inverno, permanece a opção mais reservada e próxima dos pinguins, com a colônia de papuas sempre presente.
Quer viver essa experiência? Venha observar os pinguins em nossa navegação com grupos pequenos, saindo de Puerto Almanza.
Reserve: Observação de Pinguins em Barco Pequeno
Reserve: A Rota da Centolla & Observação de Pinguins
Escrito pela equipe da Explore Tierra del Fuego.